Entender os critérios reais da decisão eleitoral é o ponto de partida para estruturar propostas, narrativa e campanha com mais chances de vitória.
Como o eleitor decide o voto? A pergunta é difícil, mas a boa notícia é que existe resposta! Uma resposta que faz sentido quando partimos do princípio de que não há fórmula mágica. Até porque o eleitorado não é uma massa homogênea: pessoas diferentes vivem realidades distintas e esperam respostas específicas para os seus próprios problemas.
Ainda assim, a experiência acumulada das campanhas eleitorais e a pesquisa acadêmica mostram que o voto não surge do acaso absoluto. Existem balizas que ajudam a entender como se constrói a decisão do eleitor. Compreender esses critérios permite utilizá-los de forma estratégica na elaboração do plano de governo.
É isso que vamos explorar neste artigo.
O voto não se forma de maneira aleatória
No processo de decisão do voto, há no comportamento dos eleitores critérios recorrentes e padrões observáveis ao longo do tempo. Eles variam conforme o contexto, o território, o perfil social e o momento político, apoiando-se em regularidades que a experiência eleitoral revela.
Essa ideia está presente no livro Comunicação dialógica e reputação eleitoral: o percurso gerativo do voto, escrito pelo sociólogo Fábio Gomes. A partir dessa leitura, fica claro que o eleitor interpreta a política a partir da própria experiência cotidiana, filtrando propostas e discursos pelo impacto percebido em sua vida concreta.
Mesmo em contextos de forte polarização ideológica, essa lógica permanece. A ideologia organiza o campo da escolha. Porém, a decisão final costuma passar por perguntas pragmáticas:
- Minha rua vai melhorar?
- O atendimento de saúde funciona quando preciso?
- A escola do meu filho entrega resultado?
- A minha renda melhora, piora ou permanece igual?
Em suma, o que isso muda na minha vida?
O voto, portanto, é situado pela experiência individual. Entender como o eleitor decide o voto é compreender o mundo como ele é vivido, muito além do que é idealizado.
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Os critérios que estruturam a decisão do eleitor
A partir da análise do processo decisório, Fábio Gomes identifica no livro os critérios centrais que orientam a escolha do eleitor. Eles funcionam de forma combinada, um reforçando o outro:
1. Competência para o cargo
“Ao escolher um candidato, o eleitor projeta soluções para seu cotidiano.”
O eleitor observa se aquele candidato aparenta ter capacidade real de resolver problemas concretos. Essa avaliação é fundamentada na biografia, mas também se embasa na percepção de preparo que se depreende das propostas, da coerência do discurso e da forma como os problemas são tratados.
2. Competência para lidar com o meio político
“No raciocínio do eleitor, querer e saber não é poder. O ‘poder fazer’ depende de habilidade com o segmento político.”
O eleitor percebe, mesmo que de forma intuitiva, se o candidato terá condições de articular, negociar e governar. A percepção de isolamento político, fragilidade institucional ou incapacidade de diálogo pesa negativamente na decisão.
3. Reputação percebida
“Não adianta alguém dizer o que um candidato é, se os eleitores o percebem de outra maneira.”
A reputação funciona como filtro da mensagem. Propostas, discursos e promessas são interpretados à luz da imagem já construída do candidato. Quando há desalinhamento entre proposta e reputação, a confiança se fragiliza.
4. Sentimentos despertados
“A dimensão dos sentimentos despertados é componente com forte carga emocional, capaz de impactar o campo lógico da tomada de decisão do eleitor.”
A decisão do voto envolve emoção. Algumas sensações influenciam diretamente a escolha:
- Cuidado, quando o eleitor percebe atenção real aos seus problemas cotidianos
- Viabilidade, quando entende que aquilo que está sendo proposto pode realmente acontecer
- Respeito, quando se reconhece tratado com seriedade e dignidade
- Segurança, quando enxerga estabilidade e previsibilidade nas propostas
- Esperança, quando vislumbra melhoria concreta para o futuro
A dimensão emocional não substitui a lógica, mas dialoga com ela.
5. Avaliação das chances de vitória
“O eleitor constrói estratégias eleitorais pelo placar.”
É fato: pesquisas eleitorais têm peso na forma como o eleitor decide o voto. Elas ajudam a formar a percepção de quem tem chances reais de vencer e orientam movimentos de voto útil, defensivo ou estratégico. O “placar” funciona como um atalho cognitivo para muitos eleitores na reta final da decisão.
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Como aplicar esses critérios na elaboração do plano de governo
Compreendidos os critérios que orientam a decisão do eleitor, o passo seguinte é utilizá-los de forma consciente na construção do plano de governo. Como começar? O livro do professor Fábio Gomes aponta:
“Antes de iniciar uma campanha, um candidato deve lançar seu olhar sobre o mundo da vida de seus eleitores. Esse olhar determinará a razão da candidatura. Justificará proposições que serão argumentadas com os eleitores. Encontrará os caminhos argumentativos para dialogar sobre suas proposições. Esse olhar sobre o mundo da vida, sobre redutos eleitorais e segmentos potenciais é o ponto de partida de uma eleição promissora. A ‘vida como ela é’ dos eleitores deve ser a grande inspiração de uma proposição eleitoral.”
Em outras palavras, diagnóstico é o ponto de partida. Esse entendimento se traduz em perguntas práticas que o plano de governo precisa responder para atender àqueles critérios:
- Que propostas mostram capacidade real de execução e, portanto, competência para governar?
- Quais caminhos indicam diálogo institucional e capacidade de negociação, ou seja, governabilidade?
- O plano reforça a reputação real do candidato, estabelecendo coerência entre a imagem percebida e o conteúdo das propostas?
- Que sentimentos o plano desperta no eleitor?
- O plano sustenta uma narrativa de preparo que fortalece a campanha e influencia a percepção de viabilidade?

O plano de governo como eixo estratégico da campanha
No livro Comunicação dialógica e reputação eleitoral: o percurso gerativo do voto, Fábio Gomes retoma uma formulação do cientista político Marcus Figueiredo ao tratar da estrutura discursiva eficaz para a ação comunicativa:
“Primeiramente o candidato deve descrever o mundo atual; depois, um mundo futuro; em seguida, mostrar a melhor forma de construir o mundo futuro desejável, para, enfim, mostrar que ele é a única garantia de que o mundo futuro desejável será construído.”
Podemos transpor esse caminho também para o processo de elaboração do plano de governo, já que o plano funciona como a base estruturante da narrativa da campanha. Um plano eficaz descreve o agora (diagnóstico), projeta o futuro que pode ser construído (horizonte), apresenta o caminho para essa transição (propostas) e ancora tudo no candidato como garantia de viabilidade. É importante que o eleitor reconheça:
- Como está a vida hoje
- Como ela pode ser amanhã
- Como se faz a transição
- Por que aquele candidato tem condições de liderar esse processo
Ou seja, ao organizar discurso, promessa e narrativa, o plano transmite preparo, coerência e viabilidade. Para muitos eleitores, especialmente os indecisos, essa percepção pesa de forma decisiva na escolha final.
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Em resumo: “entender o cenário e arquitetar estratégias customizadas”
Entender como o eleitor decide o voto é compreender a lógica que organiza a disputa eleitoral. O eleitor avalia competência, reputação, capacidade de articulação, sentimentos despertados e viabilidade percebida. Esses critérios se combinam e orientam a escolha.
Quando esse entendimento baliza a elaboração do plano de governo, o conjunto de propostas passa a cumprir função estratégica. Como sintetiza Fábio Gomes:
“Não é a novidade nem a tradição dos métodos de campanha que proporcionam vantagem competitiva, mas a habilidade para entender o cenário e arquitetar estratégias customizadas que possam estimular a mais expressiva ação democrática: o voto.”
No fim, o eleitor escolhe quem demonstra compreender sua vida concreta, projetar um futuro possível e apresentar caminhos claros para chegar até lá.



