O que um “marinheiro de primeira viagem” precisa apresentar no papel para despertar a confiança do eleitor.
Quando alguém entra na disputa por um cargo no Executivo sem antes ter sido prefeito, governador ou presidente, não há um histórico de governo para servir de referência ao eleitor. Então, o olhar de quem decide o voto se volta para outra direção: vale mais a forma como o candidato lê a realidade, o que escreve no plano de governo e o quanto demonstra, nas propostas, estar preparado.
Porque uma coisa é ter ocupado funções de gestão, como ministro, secretário ou presidente de uma Assembleia, por exemplo. Outra, bem diferente, é ter chegado ao comando de um governo.
Porém, a ausência de um histórico executivo não impede o sucesso eleitoral, desde que o candidato, por meio de outras credenciais, consiga convencer o público de sua capacidade de governar. Um plano de governo bem elaborado é ferramenta central nesse convencimento.
Marinheiros de primeira viagem também podem ir longe
A política brasileira está cheia de exemplos de pessoas que chegaram ao topo sem experiência prévia como chefe do Executivo. Fernando Henrique Cardoso nunca comandou prefeitura ou governo estadual antes de vencer a eleição presidencial de 1994. Luiz Inácio Lula da Silva, eleito pela primeira vez em 2002, também não. Dilma Rousseff chegou ao Palácio do Planalto sem sequer ter disputado qualquer cargo antes. Jair Bolsonaro passou quase trinta anos no Legislativo antes de vencer a eleição presidencial de 2018. Em nível estadual e municipal, nomes como João Doria, Romeu Zema e Ibaneis Rocha seguiram o mesmo caminho.
A questão é: como transformar essa condição de “nunca governou” em um argumento de confiança? A resposta passa por construir um plano de governo com três missões ao mesmo tempo:
- Mostrar domínio da realidade
- Converter experiências anteriores em credibilidade
- Apresentar um caminho de gestão com começo, meio e fim.
Veja a seguir, em 6 passos, um roteiro prático para estruturar um plano de governo com esse objetivo e conheça exemplos de casos similares em eleições presidenciais, estaduais e municipais.
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1. Comece pelo diagnóstico: quem nunca governou precisa provar que enxerga a realidade
Para quem já governou, o histórico de realizações fala por si. Para quem nunca governou, é o diagnóstico que vai falar.
Um bom ponto de partida é começar o plano de governo com uma leitura clara da situação vigente: problemas, causas prováveis, impacto na vida das pessoas e números que mostrem a realidade. Veja os casos abaixo:
- FHC chegou ao Planalto em 1994 amarrado ao diagnóstico da hiperinflação e à solução apresentada no Plano Real, propondo um projeto de longo prazo de desenvolvimento com justiça social
- Lula em 2002 percebeu que o problema central, além das questões sociais, era a desconfiança em relação à economia, e respondeu assumindo compromissos de estabilidade com a Carta ao Povo Brasileiro e com o próprio plano de governo
- Dilma utilizou em seu plano de governo de 2010 os fatos e números da administração Lula, na qual atuou centralmente, como a base do diagnóstico para justificar por que deveria ser eleita para “continuar e aprofundar a mudança“
- Bolsonaro capitalizou em 2018 o diagnóstico de corrupção, violência e crise de confiança nas instituições, incluindo em seu plano de governo propostas estruturais e específicas para lidar com esses desafios
Em nível subnacional, há inúmeros casos de outsiders vitoriosos.
Nas Eleições 2018, por exemplo, Ibaneis Rocha saltou de ilustre desconhecido a governador eleito no Distrito Federal. Advogado bem-sucedido e sem carreira política prévia, Ibaneis começou a campanha com apenas 2% das intenções de voto. Nesse ínterim, apresentou-se com um plano de governo que prometia renovação, explorando justamente o anseio de mudança do eleitor brasiliense após uma gestão considerada insatisfatória. Como resultado, teve quase 70% dos votos no segundo turno.
Mais recentemente, nas Eleições 2024, planos apresentados por candidatos de oposição que se sagraram vitoriosos trouxeram a mesma lógica:
- Em Belém, Igor Normando partiu de um retrato duro da cidade, com dados sobre, por exemplo, unidades de saúde em más condições, alto percentual de moradias em áreas irregulares e falta de vagas na educação infantil.
- Em Cuiabá, Abílio Brunini abriu seu plano com um “Diagnóstico de Cuiabá”, falando de “caos na saúde, buracos, corrupção e dívidas”.
- Em Porto Velho, Léo Moraes se baseou em uma análise clara e explícita dos problemas da cidade, como a violência e as carências na saúde, para demonstrar a urgência de uma administração eficiente, integrada e modernizada.
Em todos esses casos, o diagnóstico foi crucial.
O diagnóstico cumpre dois papéis fundamentais:
- Mostra que o candidato conhece a realidade em detalhes (ou seja, se conecta ao que o eleitor sente e deseja)
- Cria a base para justificar as prioridades do plano
Essa é a primeira prova de maturidade para alguém que nunca sentou na cadeira principal do governo. Em vez de frases vagas sobre “problemas antigos”, o plano deve apresentar dados, comparações e, principalmente, explicar como isso afeta a vida de quem vive na cidade, no estado ou no país.
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2. Converta a trajetória em prova de competência: Legislativo, setor privado
Imagine o que se passa na cabeça do eleitor… Ele certamente pensa: se a pessoa nunca governou, por que eu deveria acreditar que ela dará conta do recado?
O plano de governo para candidatos sem mandato anterior no Executivo precisa responder a isso ligando a trajetória do pretendente aos desafios do Executivo.
Quando se candidatou pela primeira vez, FHC ancorou sua credibilidade na experiência como ministro da Fazenda, responsável pela implantação do Plano Real. Já Lula transformou sua história de liderança sindical e articulação política em promessa de capacidade de negociação, cercando-se de técnicos respeitados. Dilma se apresentou como gestora, associada à coordenação de grandes projetos de infraestrutura no governo Lula. Por outro lado, Bolsonaro compensou a falta de experiência executiva com o discurso de combate ao sistema e com a figura de Paulo Guedes como fiador da área econômica.
João Doria elegeu-se prefeito de São Paulo em 2016 e Romeu Zema se tornou governador de Minas Gerais em 2018 tendo como credencial a experiência no setor privado, com o discurso do gestor que entrega. Foi o mesmo caso de Sandro Mabel, em Goiânia, em 2024, que converteu a trajetória empresarial em promessa de organização, cobrança de resultados e coragem para “arrumar a casa”.

Já Emília Corrêa, em Aracaju, e Abílio Brunini, em Cuiabá, apresentaram suas experiências no Poder Legislativo para demonstrar não só proximidade com a população e seus problemas, mas também um conhecimento aprofundado das falhas e da má gestão da máquina pública. Emília citou o mandato de vereadora para mostrar que percorreu todos os bairros da cidade, denunciou o que considerava negligências e ouviu as pessoas. Abílio lembrou sua atuação como vereador e deputado federal, sugerindo que isso lhe conferiu um profundo conhecimento interno da corrupção e ineficiência que ele atribuiu à administração de Cuiabá.
Mas como amarrar tudo isso?
Não basta listar cargos no texto do plano de governo. É preciso mostrar, por exemplo:
- quais problemas parecidos o candidato já enfrentou em outro contexto
- que tipo de decisão difícil já precisou tomar
- que resultados concretos já entregou
Assim, o eleitor deixa de enxergar apenas “alguém sem mandato” e passa a ver alguém com um repertório de gestão que pode ser levado para o governo.
3. Use a ideia de governança compartilhada para compensar a inexperiência
Quem nunca chefiou o Poder Executivo pode ter de enfrentar a dúvida sobre se vai conseguir “segurar o volante”. Uma forma de reduzir esse medo é mostrar que o candidato não pretende governar sozinho: haverá governança compartilhada e equipe qualificada.
- Lula, em 2002, aparecia na TV rodeado de uma grande equipe. Assim, enviou a mensagem de que governaria com economistas experientes, líderes políticos amplos e representação empresarial, o que ajudou a desmontar a ideia de um mergulho no incerto.
- Bolsonaro, em 2018, transferiu parte da confiança da área econômica para a figura de Paulo Guedes e afirmou que as instituições militares teriam papel ampliado (inclusive em segurança pública e combate ao crime) dentro do futuro governo.
- Governadores novatos como Romeu Zema, em 2018, sinalizaram desde a campanha que priorizariam equipes técnicas e modelos de gestão profissional.
- Em 2024, Evandro Leitão, em Fortaleza, destacou ter construído seu programa de governo com 23 grupos temáticos e rodas de conversa nas regionais, o que, como resultado, sugeriu uma lógica de governar nesse modelo de escuta.
- Sob o mesmo ponto de vista, Léo Moraes, de Porto Velho, também em 2024, mostrou que seu plano era resultado de diálogos com gestores, especialistas e representantes da sociedade civil, construindo a imagem de rede qualificada em volta da candidatura.

Como colocar isso no plano de governo?
No plano de governo para candidatos sem mandato no Executivo , isso pode aparecer em compromissos claros com:
- critérios técnicos para nomeação de cargos-chave
- conselhos atuantes e representativos
- espaços permanentes de escuta da população e dos setores produtivos
Ao fazer isso, o candidato manda um recado importante: mesmo sem experiência executiva, ele não vai improvisar. Vai governar com método, ouvindo quem entende e compartilhando responsabilidade.
4. Una diagnóstico, soluções e viabilidade em um mesmo quadro
Logo depois de mostrar que entende os problemas e tem trajetória, o plano de governo para candidatos sem mandato anterior no Executivo precisa avançar para o principal: como resolver.
A estrutura pode seguir uma lógica:
- diagnóstico resumido do problema
- objetivos que se pretende alcançar
- conjunto de ações prioritárias
- fontes prováveis de financiamento e parcerias
Nos exemplos nacionais, isso aparece de formas diferentes. FHC, ao vincular seu nome ao Plano Real, oferecia uma combinação de diagnóstico, caminho e resultados já em andamento no governo Itamar Franco, seu aliado. Lula sinalizou metas gerais de estabilidade e compromisso com regras já estabelecidas. Governadores outsiders acabam fazendo algo semelhante quando falam em ajuste de contas públicas, metas de investimento e reorganização de despesas.
Em planos municipais de 2024, esse encaixe também foi visível. Igor Normando, por exemplo, ligou o diagnóstico de estagnação de Belém a ações emergenciais, articuladas com o governo estadual, para tirar projetos do papel. Abílio associou rombo financeiro e colapso da saúde em Cuiabá a propostas de uso de tecnologia, transparência e reorganização da rede. Ao passo que Léo Moraes conectou indicadores de violência em Porto Velho a políticas específicas de segurança e proteção às mulheres.
Para candidatos sem mandato anterior no Executivo, um plano de governo convincente:
- transforma cada grande problema em um pacote de entregas possíveis
- evita promessas grandiosas sem lastro orçamentário
- indica, pelo menos em linhas gerais, de onde virão os recursos
Quando o eleitor percebe que existe essa costura, a sensação é de que há um projeto de gestão, não apenas vontade política.
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5. Mostre parcerias e articulação: ninguém governa sozinho, muito menos um “novato”
Outro ponto que pesa bastante na confiança do eleitor é a sensação de que o candidato sabe construir pontes. Ou seja, é a capacidade de articulação. Afinal, ninguém governa sozinho. Muito menos quem está estreando em cargos complexos.
O plano de governo pode ajudar a mostrar que o candidato entende a engrenagem federativa e institucional. No nível municipal, isso inclui parcerias com governo estadual, governo federal, consórcios regionais e organismos internacionais. Já quando se trata do nível estadual, envolve relação com prefeituras e União. No nível federal, implica diálogo com Congresso e governadores, bem como diversos atores sociais.
No plano de governo, isso pode ser traduzido em:
- compromisso com consórcios e arranjos regionais
- previsão de busca sistemática de recursos em ministérios e bancos de fomento
- cooperação com universidades, setor privado e terceiro setor
Quando o candidato fala de parcerias como parte da estratégia, ele mostra maturidade política. Para quem nunca governou, essa maturidade, acima de tudo, pesa muito na balança.
6. Use o plano como peça central da comunicação
Por fim, o plano de governo deve ser mais do que um PDF obrigatório, feito só pra ser protocolado na Justiça Eleitoral. Para todos os candidatos, especialmente os que nunca tiveram mandato executivo, o plano precisa balizar a campanha.
Isso significa:
- usar os eixos do plano como base para discursos, entrevistas e debates
- transformar diagnósticos e propostas em histórias, casos reais e materiais visuais
- treinar o candidato para responder com segurança a perguntas específicas sobre as propostas
Quando o eleitor percebe que o candidato fala das mesmas ideias na TV, nas redes sociais, nas entrevistas à imprensa e no texto oficial do plano, a sensação de coerência é fortalecida. O candidato não é apenas um nome jogado na disputa: é percebido como alguém que tem um projeto sólido.
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Em resumo
Um plano de governo para candidatos sem mandato anterior no Executivo é, na prática, oportunidade de mostrar experiência antecipada. Ele compensa a ausência de realizações administrativas por cinco provas concretas de que o candidato:
- Entende a realidade com profundidade
- Sabe transformar diagnóstico em prioridade
- Consegue converter sua trajetória em competência gerencial
- Reconhece que precisa de equipe, governança compartilhada e parcerias
- Tem noção de orçamento, limites e caminhos de viabilidade
Para muitos outsiders vitoriosos, foi exatamente isso que fez a ponte entre o desejo de mudança do eleitor e a confiança de que essa mudança poderia dar certo.
Em suma, não basta dizer que é o novo. É preciso apresentar um plano que convença o eleitor de que esse novo sabe o que está fazendo e está pronto para governar desde o primeiro dia.



