Os erros mais frequentes no uso dessas ferramentas e o que fazer para construir algo que realmente se destaque.
Você já teve a sensação de estar lendo vários textos diferentes que, no fundo, parecem exatamente iguais? Essa impressão tem se tornado cada vez mais comum e é muito fácil de entender: tem muita gente produzindo material com as mesmas ferramentas de inteligência artificial, usando prompts genéricos e padrões muito parecidos. Só podia dar numa coisa: tudo começa a soar igual…
O problema não está no uso da tecnologia. É ótimo dispor de ferramentas para agilizar o trabalho. A questão é que a maioria das pessoas, ao usar inteligência artificial, delega tudo a ela, sem se preocupar em dar um direcionamento preciso e muito menos em fazer uma revisão rigorosa no que ela produziu.
Neste artigo, vamos conversar sobre como usar a inteligência artificial na elaboração do plano de governo, sem cair no risco de produzir algo errado ou com cara de “mais do mesmo”. Aliás, as dicas aqui serão úteis não apenas para criar um bom plano de governo nas Eleições 2026, mas também para qualquer tipo de conteúdo, político ou não.
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Mais gente produzindo com IA, menos conteúdo se destacando
Todo mundo sabe e os números confirmam. O uso de ferramentas de inteligência artificial, como ChatGPT, Manus e Gemini, vem crescendo de forma acelerada. De acordo com o relatório mais recente da consultoria McKinsey, 88% dos entrevistados relatam uso regular de IA em pelo menos uma função de negócios em suas organizações.
No marketing e na produção de conteúdo, esse avanço aparece de forma muito evidente no dia a dia. Levantamento da plataforma HubSpot indica que 80% dos profissionais da área já utilizam IA para criação de conteúdo e 75% para produção de mídia. Em contrapartida, 53% reconhecem a dificuldade de criar algo que realmente se diferencie e se destaque – o que corrobora aquela sensação de estar tudo muito parecido.

Como inteligência artificial funciona e por que ela ajuda
A inteligência artificial funciona como um modelo matemático avançado. Ela analisa grandes volumes de dados, identifica padrões e produz respostas com base nesses padrões. Em outras palavras, ela não “pensa” como um humano: a IA calcula probabilidades e tenta reproduzir o modo humano de pensar.
Nesse sentido, ela pode ajudar muito em etapas importantes de um plano de governo, como:
- Organizar informações de diferentes fontes
- Resumir relatórios extensos
- Cruzar dados de áreas diversas para entender a relação entre eles
- Sugerir estruturas iniciais de texto
Além disso, quando o prazo está apertado, ela contribui para ganhar velocidade em tarefas operacionais que consumiriam muito tempo.
Ou seja, utilizada com critério, a inteligência artificial na elaboração do plano de governo é uma alavanca de produtividade.
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Por que tudo começa a parecer igual
Mas nem tudo são flores… Como a inteligência artificial trabalha a partir de padrões estatísticos, ela tende a reproduzir estruturas que já funcionaram antes. Portanto, mesmo quando pessoas diferentes fazem perguntas diferentes, o resultado converge para formatos muito parecidos. Isso explica por que tantos textos hoje apresentam:
- Estruturas previsíveis demais
- Frases com ritmo artificial
- Encadeamentos padronizados
- Generalizações que servem para qualquer contexto
Por isso que aparece tanto travessão nos textos: a IA “viu” isso em livros de grandes escritores, como Machado de Assis e Guimarães Rosa, e passou a usar, porque, para ela, se esses caras usaram, existe grande probabilidade de todo mundo usar…
Na prática, é aquele tipo de texto manjado que você lê e já sabe para onde vai, mesmo quando temas diferentes são abordados. Imagine quantos problemas isso pode causar para uma candidatura…
O peso do erro técnico para a credibilidade política
Antes de mais nada, um plano de governo precisa refletir a realidade local e contemplar as demandas que as pessoas realmente têm.
Assim, quem usa a IA no processo de elaboração do plano deve saber orientar corretamente as ferramentas para não cair numa situação como a que testemunhei na campanha de 2024. O plano de governo de uma candidatura de uma grande cidade propunha a construção da sede da Secretaria Municipal de Segurança Pública. O detalhe é que o município em questão sequer tinha uma secretaria com esse nome… A estrutura local se chamava Secretaria de Defesa Social.
Esse tipo de erro escancara o uso descuidado de alguma ferramenta de IA, o que transmite desatenção, fragiliza a credibilidade e expõe o candidato a vexame.
Além disso, há outro risco igualmente grave: propostas genéricas. Quando o texto não é personalizado à realidade local, ele serve para qualquer lugar e, assim, perde a força política.
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Como usar inteligência artificial sem cair no genérico
Se você vai usar IA na elaboração do plano de governo, saiba que a diferença entre um plano consistente e um texto genérico está na forma como a ferramenta é conduzida. Veja alguns cuidados práticos:
1. Comece pelo “natural”, não pelo “artificial”
Antes de ir pra qualquer plataforma de inteligência artificial, é essencial ter clareza sobre o candidato. Nesse sentido, a entrevista em profundidade é crucial pra saber o que IA nenhuma sabe. É nela que aparecem:
- O tom de voz
- As prioridades reais
- A história de vida
- A forma como o candidato enxerga os problemas
Com isso, o plano de governo tem um excelente caminho de diferenciação em relação aos adversários.
2. Defina a lógica do plano
A inteligência artificial responde melhor quando recebe orientações claras e bem definidas. Portanto, você precisa dizer no prompt para a IA como organizar o raciocínio.
Para estruturar os eixos, por exemplo, uma bom caminho é este:
DIAGNÓSTICO → PROPOSTA → RESULTADO ESPERADO
Com essa lógica, a inteligência artificial tende a organizar o plano de forma mais clara e coerente, facilitando a compreensão por parte do eleitor, da imprensa e de quem for analisar o documento. Além disso, essa estrutura ajuda a própria equipe a transformar o plano em conteúdo, porque deixa evidente qual é o problema, o que será feito e qual benefício o eleitor terá.
3. Trabalhe o campo semântico
Um plano de governo também comunica posicionamento. Se a candidatura está ancorada em mudança, o vocabulário precisa refletir isso. Se a estratégia é continuidade, a escolha de palavras deve seguir outro caminho.
Portanto, orientar a IA com o campo semântico adequado ajuda a evitar textos neutros demais.
Uma dica: o Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, de Francisco Ferreira Azevedo, é uma excelente ferramenta para definir o campo semântico a ser utilizado no plano de governo e na estratégia de uma candidatura. O dicionário analógico funciona como um “localizador de ideias”: você busca um tema e ele oferece palavras e ideias relacionadas. Por exemplo, ao procurar por “mudança“, o dicionário não dá apenas sinônimos (“alteração”, “transformação” e “evolução” são alguns), mas sugere expressões como “virar a página” e “apresentar outro cenário”. São subsídios ótimos para inspirar o tom exato para o texto.
4. Use a IA para cruzar dados, mas faça você a interpretação
A inteligência artificial é excelente para identificar relações entre dados. Por exemplo, ao cruzar informações de saúde com saneamento e educação, surgem insights importantes.
No entanto, a interpretação final precisa ser humana. É ela que dá peso político ao diagnóstico.
5. Revise com atenção redobrada
A etapa mais importante continua sendo a revisão. E aqui é mandatório ir além de uma leitura superficial. Na prática, revisar um plano de governo elaborado com apoio de IA envolve pelo menos quatro camadas:
- Eliminação de marcadores de IA: frases curtas demais, ritmo artificial, estruturas repetitivas e conectivos usados de forma mecânica denunciam o padrão da máquina. É preciso reescrever, variar construção, ajustar o fluxo e dar a “sua cara”.
- Verificação factual rigorosa: modelos de IA podem gerar informações imprecisas ou até completamente incorretas, mas com aparência de verdade – fenômeno conhecido como “alucinação”. Nomes de órgãos, dados estatísticos, leis e estruturas administrativas, principalmente, devem ser checados um a um. Esse tipo de erro num plano de governo pode gerar situações constrangedoras para o candidato.
- Adequação ao contexto local: por seguir padrões, a IA pode, na hora de construir o texto de uma proposta, inventar propor soluções que não fazem sentido para o município, o estado ou o país. Portanto, cada proposta precisa ser confrontada com a realidade concreta.
- Alinhamento com estratégia e tom de voz: o texto precisa refletir o posicionamento da candidatura. Vocabulário, prioridades e forma de argumentar devem estar coerentes com a estratégia política definida.
Esse tipo de revisão exige repertório, método e senso crítico. E, convenhamos, inteligência artificial nenhuma pode fazer isso com qualidade no seu plano de governo. É gente de carne e osso (e conhecimento, pensamentos, ideias, vivências) que resolve isso.
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Atenção para restringir o uso dos seus dados!
Outro ponto importante está na segurança da informação. Ao utilizar inteligência artificial, é fundamental configurar a ferramenta para que os dados inseridos não sejam utilizados em interações com outros usuários.
No caso do ChatGPT, vá às configurações e desmarque a opção “Melhorar o modelo para todo mundo”. Isso evita exposição indevida de informações estratégicas da campanha.
O que a legislação eleitoral exige sobre o uso de IA
Além de todos os cuidados técnicos e estratégicos, há outro ponto crucial: a legislação eleitoral. A Resolução nº 23.755/2026 do Tribunal Superior Eleitoral define que qualquer material gerado ou significativamente alterado por tecnologia digital, incluindo inteligência artificial, é conteúdo sintético. Isso vale para imagem, vídeo, áudio e também texto.
O Art. 9º-B estabelece que, sempre que esse tipo de conteúdo for utilizado na propaganda eleitoral, deve haver uma identificação clara, destacada e acessível informando que houve uso de inteligência artificial, bem como a tecnologia empregada.
No caso de materiais impressos, como o plano de governo (mesmo que seja só em PDF), essa indicação precisa aparecer em cada página em que houver uso desse tipo de conteúdo.
Na prática, isso abre uma discussão interessante. Um texto gerado por IA e publicado sem qualquer intervenção humana tende a se enquadrar com facilidade nessa definição de conteúdo sintético. Por outro lado, quando há uma revisão rigorosa, com ajustes de linguagem, alinhamento estratégico, incorporação do tom de voz do candidato e adequação à realidade local, o resultado final passa a refletir muito mais o trabalho humano do que o automatismo da ferramenta.
Portanto, mais do que uma exigência formal, a revisão cuidadosa cumpre também um papel estratégico: o de reduzir o risco de o plano de governo ser enquadrado como material produzido com inteligência artificial, o que poderia enfraquecer a credibilidade da candidatura.
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Em resumo
A inteligência artificial já faz parte da rotina de quem produz conteúdo político – e isso inclui os planos de governo. Portanto, a discussão já não gira mais em torno de usar ou não usar. O grande ponto é: como usar.
Quando usada de forma preguiçosa, a inteligência artificial empobrece o plano de governo, torna o candidato parecido com outros e cria fragilidades junto ao eleitor e à Justiça Eleitoral. Quando bem orientada, a IA pode ajudar a equipe (de humanos!) a se organizar melhor e acelerar a elaboração do plano de governo nas Eleições 2026.



