Veja um método eficiente para fazer do conjunto de propostas o primeiro grande conteúdo da campanha eleitoral.
No burburinho às vezes caótico da campanha (só às vezes?), tem “alguém” que geralmente é deixado lá no cantinho, sem receber a devida atenção. O plano de governo ainda é visto por muitos como apenas um documento protocolar, exigido pela Justiça Eleitoral, feito para ser esquecido no repositório digital do TSE. Um amontoado de eixos, metas e jargões técnicos que nem o próprio candidato tem paciência de ler.
Mas, acredite, é possível transformar esse documento numa peça viva de comunicação eleitoral, para engajar e conquistar votos! Um documento com clareza, em tom de conversa amiga com o eleitor, que inspira confiança e desperta uma sensação positiva em quem está lendo: “Ué… isso aqui tá diferente.”
É aí que entra o conceito de pattern interrupt.
Pattern interrupt?! Isso é de comer?
Antes de mais nada, a expressão vem do inglês e significa interrupção de padrão. Na prática, é uma técnica usada para quebrar o fluxo previsível de pensamentos, linguagem ou comportamento.
Nosso cérebro adora padrões… e reage quando eles são quebrados. Quando a narrativa toma um rumo inesperado, prende a atenção, não pelo susto, mas pela inteligência da virada.
A imagem que abre este artigo, por exemplo, é uma foto que fiz há alguns anos aqui em Curitiba: um carro que virou um vaso gigante. Não é isso que se espera de um carro, certo? Pois essa fotografia representa uma metáfora visual sobre quebrar padrões e surpreender.
Muito usado em publicidade, vendas, storytelling e persuasão, o pattern interrupt é uma técnica que funciona como um empurrão suave: tira a pessoa do piloto automático e a convida a prestar mais atenção. Exatamente o que a maioria dos planos de governo não faz…
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E se o plano de governo fosse diferente?
Em plano de governo, os trilhos mentais mais comuns são:
- Burocratês e impessoalidade
- Abstração e generalidade
- Promessas genéricas que servem para qualquer lugar
- Lista de ações bem-intencionadas, mas inertes do ponto de vista cognitivo e emocional
Quando uma frase quebra um desses trilhos, ela é pattern interrupt. Por exemplo, imagine começar assim um plano de governo:
“Chega de apagar incêndio o tempo todo. A cidade precisa de planejamento, coordenação e metas claras.”
Dessa forma, causaria um efeito muito melhor do que abrir com o típico “Temos um grande compromisso com a boa gestão”. E sabe por quê? Porque entra direto com uma metáfora visual, cotidiana, que qualquer pessoa entende. É o tipo de frase que faz o eleitor pensar: “É verdade, só apagam fogo.” Ele vê o problema e reconhece a necessidade da mudança.
Isso é pattern interrupt no plano de governo.
A técnica na prática
Selecionei abaixo alguns trechos reais de planos de governo que aplicam no texto a técnica do pattern interrupt. Começando com três frases do plano de Acir Gurgacz, que redigi em 2018:
1. “Planejar é pensar para realizar. Pensar com a cabeça e com o coração. Realizar com competência e sensibilidade.”
Essa frase quebra o padrão do planejamento como tecnicalidade fria. Usa paralelismo, ritmo e uma estrutura quase poética. Em vez de abrir com uma sentença burocrática sobre planejamento estratégico, fala em razão e emoção, cabeça e coração. Foge do jargão e entra num registro quase de manifesto. Isso humaniza imediatamente o tom do texto.
2. “Quando a autoridade fraqueja, o crime toma conta.”
A princípio, pode parecer sensacionalismo. No entanto, essa frase foge daquele óbvio que sempre aparece: “A segurança pública é um dos principais desafios”. Com ritmo, força e verdade, dispensa explicações técnicas. Ela nomeia o problema de forma implacável, deixa claro que agir é urgente, chacoalha o eleitor e estabelece uma linha de corte: ou se governa com firmeza ou o caos avança. É o tipo de sentença clara, que qualquer pessoa compreende.
3. “É triste, mas é verdade: Rondônia ainda está doente.”
A frase, antes de mais nada, quebra o padrão do diagnóstico impessoal e humaniza o problema. Rondônia deixa de ser um território abstrato e passa a ser uma pessoa ferida, fragilizada, que precisa de cuidado. Isso cria conexão emocional e ativa uma imagem poderosa: o estado precisa de diagnóstico, tratamento e cura e o candidato se coloca como o agente dessa recuperação. É um pattern interrupt que toca fundo.
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4. “O próximo prefeito terá uma chance única de construir ao lado do povo a cidade que o povo realmente quer.”
Essa frase está no plano de governo de Tiago Amaral, que redigi em 2024. Ela carrega um pattern interrupt menos visível, mas mais profundo:a ruptura com o modo tradicional de elaborar os grandes planos municipais. No mandato em disputa nas Eleições 2024, Londrina veria vencer, ao mesmo tempo, vários planos estruturantes de longo prazo, criando uma situação rara, em que as principais políticas públicas precisariam ser repensadas em conjunto. Ao propor que esses novos planos fossem construídos longe de gabinetes fechados e ao lado da população, o candidato interrompeu o padrão institucional e chamou o eleitor para dentro do processo, como protagonista.
5. “Na gestão Tiago Amaral, não vamos colocar a culpa na população.”
Aqui, o tema era a dengue, problema imenso na cidade de Londrina. Em geral, políticos jogam toda a responsabilidade do combate ao aedes aegypti pra cima dos cidadãos. Na proposta apresentada aos londrinenses, o candidato chamou a Prefeitura para o seu dever de agir apresentando uma quebra de padrão de postura, não só de linguagem.
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6. “Eu brinco que Goiânia precisa de um prefeito 5G: gestor, guerreiro, gerentão, com garra e que gosta de gente como eu gosto.”
Essa declaração, do plano de governo de Sandro Mabel, eleito prefeito da capital de Goiás em 2024, rompeu com a linguagem institucional. Ele poderia ter dito “prefeito preparado, experiente, comprometido com a gestão e com as pessoas”, mas optou por criar um conceito-marca fácil de visualizar e lembrar. “Prefeito 5G” é o tipo de ideia que cola fácil na memória das pessoas e, sobretudo, estabelece diferenciação em relação aos outros candidatos. Ao usar humor, metáfora tecnológica e uma enumeração rítmica, o candidato transformou perfil de liderança em imagem concreta, com identidade própria e leitura imediata para o eleitor.
7. “Acelera São Paulo!”
Esse enunciado abriu o plano de governo de João Doria, candidato a prefeito de São Paulo em 2016, e rompeu com o padrão de linguagem técnica e institucional. O candidato, então estreante na política eleitoral, tinha trajetória no mundo empresarial e da publicidade. Seu plano antecipou o que viria a ser o slogan da campanha eleitoral: curto, imperativo e típico do varejo e do universo corporativo. Com isso, enquadrou toda a leitura do programa sob a lógica de urgência, eficiência e entrega de resultados. Um bom exemplo de pattern interrupt no plano de governo.
Não é firula, é estratégia
Usar pattern interrupt no plano de governo é mais do que um truque para dar estilo ao texto. É ferramenta de comunicação política, que:
- Organiza o conteúdo com propósito
- Quebra automatismos mentais
- Cria condições para que o eleitor compreenda e lembre as propostas, bem como se conecte a elas
É também um convite à coerência: se o candidato se propõe a fazer diferente, o plano precisa revelar isso na forma como é apresentado.
O que você escreve importa. Como você escreve define quem vai seguir lendo, para entender o projeto e reconhecer a proposta de valor do candidato.
Em resumo: um plano escrito para tocar e pensado para vencer
Quando o plano é lido até o fim, ele deixa de ser apenas um conjunto de promessas e passa a ser um projeto compreendido. Quem entende o todo do plano entende o que aquele candidato quer construir para a cidade, para o estado ou para o país.
Compreensão gera vínculo. Vínculo gera engajamento. Engajamento gera voto, conquistado por ideias, propósito e compromisso real com a melhoria da vida das pessoas.
O plano de governo pode ser o primeiro grande conteúdo da campanha e o ponto de partida de uma narrativa consistente e vencedora.



